domingo, 19 de março de 2017

HOJE SÓ QUERO O ORVALHO

HOJE SÓ QUERO O ORVALHO.

Roubei a força do vento
roubei a beleza da flor
hoje os meus sentimentos
estão sedentos de amor

não do amor sensual
do amor das coisas da terra
deste amor que hoje falo
encontramos a brilhar
na simples chama de uma vela

Roubei a velocidade
da luz, que nos alumia
minha pressa é pra encontrar
tudo na vida que brilha
não como ouro ou prata

como pedra preciosa
mas apenas com o sorriso
do desabrochar da rosa
de uma criança ao nascer
recebida pelos seus
de um velhinho a contar

as suas vidas passadas
para os netos que sentados
escutam suas histórias
muitas das travessuras
que o mesmo já viveu

Hoje roubei teu sorriso
quero alegrar meu rosto
já não encontro lugar
para abrigar desgostos
meu rosto só quer orvalho

molhando minha pele quente
quero plantar a semente
do amanhã que um dia
sonhei para nossa terra
e pra todos que viviam

como irmãos, a conversar
naquela cozinha nossa
beliscando os biscoitos
jogando conversa fora
mas havia a tal magia

encontrada nos encontros
das almas já conhecidas
em outros momentos tantos
que sorriem ao se encontrarem
como amigos de outrora

e não querem perder tempo
eis que o momento é agora
o tempo: Não nos perdoa
parte veloz a cavalo
e nós querendo viver

cada minuto em contato
com a alma encontrada
após os dias distantes
vivendo como amigos
ou mesmo como amantes...

Roubei a vara da fada
sua vara de condão
hoje quero a madrugada
iluminada em clarão
da lua enamorada
chorando a solidão

eis que o sol, só retorna
quando a mesma parte então
não percebe a companhia
das estrelas, que estão lá
lhe fazendo mil carícias

como as ondas do mar
quando caímos em seus braços
sem medo, sem restrição
nos entregando ao aconchego
de suas águas, na pele

banhando o coração
dos que se deixam levar
pelo teu toque suave
a massagear o corpo
a mente e nos revele
os segredos dos navios

que transportavam tesouros
que trouxeram tantos negros
escravos, uns quase mortos
e chegando em nossas terras
de seus filhos separados
as esposas eram tiradas
para servirem ao senhor
viveram dias de espanto
de agonia e terror!

Hoje roubei a esperança
dos homens crentes e crédulos
mas a minha confiança
já trazia, dos infernos
que fui jogada outrora

mas continuo de pé
com tanta alegria agora
só sendo invenção da fé
como sobrevivi antes
dos duros cortes da vida

os falsos amigos todos
fugiram quais delinquentes
flagrados pela polícia
corriam a todo vapor
não havia quem tocasse

em suas vestes de horror
ao me ver, com minha face
crestada por queimaduras
das perdas, da agonia
a fome já espreitava....
e alguns se aproveitavam

antes que a fera chegasse
eis que viver na alegria
não cabia amigo morto
sem forças, nem direção
sem um futuro incerto
sem a menor condição

de dividir às migalhas
do que o dinheiro comprava
Oh amigos, quanto alívio
hoje vivo bem distante
das bajulações, invejas
das peças que me pregavas

eram tantas as mentiras
que quase me transformei
em boneco sem uma alma
muito tempo suportei
mas um dia a crueldade
desferida por vocês

comensais dos meus banquetes
hoje fartos de uma vez
partiram sem um bilhete
avisando a deserção
mas o que esperar de loucos
movidos por ambição?

que ficassem onde pensavam
não ter mais o que extrair
é esperar que um mendigo
fique girando em deserto
sem ter a quem mais pedir.

Vânia de Farias Castro.

Outubro de 2014.

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