UM DIA
Vânia de Farias.
Há poucos dias, alguém flagrou o ator brasileiro Mario Gomes vendendo sanduíches e batatinhas, numa praia carioca. A cena correu o país, através das redes sociais.
Uns alarmados, uma vez que o ator havia feito inúmeros filmes, e ainda
muitas telenovelas na emissora de TV, mais popular do país.
Outros,
comentavam que não havia motivos para especulação, uma vez que o mesmo
aos 65 anos de idade, ainda tinha força e coragem para trabalhar, o que
seria um privilégio, no entender deles.
Se levarmos em
consideração, ter sido o ator, um galã das telenovelas de uma das
emissoras mais vista do país, esperava-se que estivesse hoje usufruindo
dos frutos de seu antigo sucesso, entretanto sabemos que a vida não
funciona de forma tão lógica e linear, e o ator foi alvo de um
comentário odioso em relação a sua reputação, que teria prejudicado sua
carreira. E temos notícias de muitos outros atores e atrizes, terminarem
seus dias de vida completamente abandonados, pelos próprios familiares,
amigos e colegas de profissão- imaginem de seu público- que costuma ser
volátil e volúvel.
Refletindo sobre o assunto, veio a
minha memória o garoto João Vitor, que aos 13 anos fora espancado até a
morte, por dois funcionários de uma lanchonete no estado de S. Paulo.
Ironicamente, o próprio nome João, é hoje denominação para os
milhões de brasileiros que vivem a margem da sociedade, sobrevivendo das
sobras, restos de comidas, jogadas por restaurantes e lanchonetes, ou
mesmo de domicílios residenciais, os conhecidos Joãos-ninguém.
"
João-ninguém é uma expressão popular que define um
homem sem importância; pessoa insignificante.
Segundo o Dicionário Caldas Aulete, 1. Aquele que é considerado sem
valor por não ter instrução, prestígio social, dinheiro; indivíduo
insignificante, sem importância; ZÉ-NINGUÉM; POBRE-DIABO;
BANGALAFUMENGA; PÉ-RAPADO.
Em OsDicionários.com.
é o Indivíduo insignificante, sem importância; sujeito à toa. [Sin.:
joão-fernandes, badameco, badana, bangalafumenga, beldroegas,
berdamerda, beré-beré, bicho-careta, borra-botas, brochote, bunda,
bunda-suja, fabiano, fubica, futrica, gato-pingado, janistroques,
lagalhé ou leguelhé, lheguelhé, maenga, mequetrefe, ningres-ningres, zé
dos anzóis, zé dos anzóis carapuça, zé da véstia, zé-prequeté.
Começo a imaginar os milhões de Joãos-ninguém que são humilhados,
queimados, crucificados - não em sentido figurado- assassinados e
abandonados, ou mesmo enterrados em covas rasas, que sequer tiveram
direito a um dia. Sim, apenas um dia, para, mesmo enfrentando todos os
impedimentos, legais, sociais, materiais e morais, pudessem viver,
vendendo cachorro-quente, ou batatinha... trabalhando nas construções,
ou nas cozinhas dos mais abastados, comendo e vestindo as sobras doadas
pelos patrões.
Será que os Joãos-niguém, alcançados pelos golpes
certeiros dos anjos da morte, que hoje, assolam o nosso país, não
desejavam ter mais um dia ou mais um ano, uma década, para regar a
plantinha da esperança de uma vida melhor?
E mais, será que esses
anjos da morte, ainda não sabem que também são Joãos-ninguém? Que a
elite soberba não precisa sujar as mãos com o sangue desses menores, já
que dispõem de milhares de pares de mãos para vestirem luvas de sangue e
após, ostentarem a desculpa que estavam apenas cumprindo ordens.
João Pessoa, março de 2017

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